
Entre adventistas, poucas orientações de saúde são tão conhecidas quanto a recomendação de evitar chá e café. A frase de Ellen G. White segundo a qual “o uso de chá e café é pecado, uma condescendência prejudicial” é forte e, por isso, precisa ser interpretada com precisão. Quando ela escreveu tea (chá), referia-se a qualquer infusão vegetal? Sua orientação poderia ser aplicada também ao chá-mate, ao chimarrão e ao tereré? A resposta exige distinguir três coisas: o que ela chamava de “chá”, porque o rejeitava e até onde o princípio usado por ela pode ser estendido à erva-mate (Ilex paraguariensis).
O “chá” de Ellen G. White
Uma carta de 1888 oferece a evidência mais direta. Reagindo à afirmação de que consumia chá, Ellen G. White escreveu: “I do not use tea, either green or black” (“Não uso chá, seja verde ou preto”). Na mesma carta, afirmou que havia usado pequena quantidade de chá em situações excepcionais, como recurso medicinal durante episódios de vômito, mas não como bebida habitual. Também disse que utilizava uma infusão de red clover top (trevo-vermelho), que considerava uma bebida “simples e saudável”.¹
A distinção é importante. Ellen G. White não estava condenando qualquer bebida feita pela infusão de folhas ou ervas em água. Em português, chamamos de “chá” preparações de camomila, hortelã e erva-doce. No contexto de Ellen G. White, porém, “chá verde” e “chá preto” remetiam ao chá comercial derivado da planta então conhecida, entre outros nomes botânicos, como Thea sinensis, hoje classificada como Camellia sinensis.
A nona edição da Encyclopaedia Britannica, contemporânea de Ellen G. White, registrava que Lineu havia inicialmente descrito o chá como Thea sinensis e explicava que, já em 1843, Robert Fortune havia constatado que chá preto e chá verde podiam ser produzidos das folhas da mesma planta.² A taxonomia moderna reconhece Camellia sinensis (L.) Kuntze, da família Theaceae, e registra Thea sinensis L. como sinônimo.³ Portanto, quando Ellen G. White especifica “green or black”, o referente histórico é claro: o chá derivado de Camellia sinensis.
Por que ela o rejeitava?
A razão apresentada por Ellen G. White não era simplesmente botânica. Em A Ciência do Bom Viver, no capítulo dedicado a estimulantes e narcóticos, ela escreveu que “o chá atua como estimulante” e acrescentou que “a ação do café, e de muitas outras bebidas populares, é idêntica”. Em seguida, descreveu a excitação inicial, a sensação passageira de energia e a reação posterior ao efeito estimulante.⁴
Em outro documento, de 1896, aparece sua formulação moral mais incisiva: “Tea and coffee drinking is a sin, an injurious indulgence” (“Tomar chá e café é pecado, uma condescendência prejudicial”). O contexto imediato associa essa avaliação à excitação e à ação sobre o sistema nervoso produzidas pelos estimulantes.⁵ Seu argumento, portanto, não se limita à identidade da planta. O foco inclui temperança, domínio próprio e o hábito de recorrer a substâncias estimulantes.
Também é preciso distinguir a linguagem médica do século 19 da farmacologia atual. Termos como “narcótico” e “intoxicação” nem sempre eram usados no sentido contemporâneo. Hoje, a cafeína é classificada como metilxantina e estimulante do sistema nervoso central.⁶ Isso não impede reconhecer o núcleo do argumento de Ellen G. White.
E a erva-mate?
A erva-mate não é a mesma planta do chá. A Ilex paraguariensis A.St.-Hil. pertence à família Aquifoliaceae e é nativa de regiões da América do Sul, incluindo Brasil, Paraguai, Uruguai e nordeste da Argentina. Já a Camellia sinensis pertence à família Theaceae e tem origem asiática. Botanicamente, portanto, chimarrão, tereré e chá-mate não são formas de Camellia sinensis.³ ⁷
A diferença botânica, contudo, não encerra a discussão. A erva-mate contém metilxantinas, especialmente cafeína e teobromina. Uma revisão publicada no Journal of Food Science descreve Ilex paraguariensis como fonte desses compostos e registra sua ação estimulante sobre o sistema nervoso central.⁸ Estudos químicos realizados com erva-mate brasileira também identificaram e quantificaram cafeína e teobromina nas folhas da planta.⁹
A questão hermenêutica, então, é que o princípio usado por Ellen G. White contra chá e café dependia exclusivamente da espécie botânica ou também do caráter estimulante da bebida? Seus próprios argumentos apontam claramente para a segunda dimensão, embora a primeira determine a que produto suas palavras se aplicavam diretamente.
O mate no ambiente adventista do século 19
Há ainda um dado histórico relevante. Em abril de 1880, a revista adventista Good Health publicou o artigo “Tea and Coffee”, assinado pelas iniciais J. H. K. O texto menciona expressamente “Maté, or Paraguay tea” e o inclui na discussão sobre substâncias relacionadas à teína, nome então usado para a cafeína do chá.¹⁰ O artigo registra ainda que o mate era uma bebida comum na América do Sul.
Esse documento precisa ser usado com cautela. O artigo contém explicações químicas próprias de seu período e aproxima a teobromina da cafeína de maneira que a química atual não aceita como identidade molecular. Teína e cafeína são a mesma substância; teobromina é outra metilxantina. O valor dessa fonte é histórico, pois ela demonstra que o mate sul-americano já era conhecido e discutido em uma publicação adventista de saúde como bebida de caráter estimulante.
A mesma associação aparece em The Home Missionary, em 1894, e na Advent Review and Sabbath Herald, em 1898, em artigos de Alonzo T. Jones. Neles, “mate, or Paraguay tea” aparece entre produtos que continham o princípio estimulante então discutido sob os nomes de teína e cafeína.¹¹ ¹² Esses artigos não são escritos de Ellen G. White, e alguns detalhes químicos estão ultrapassados. Também não há base para afirmar que ela tenha lido esses números específicos. Eles mostram, contudo, que relacionar mate e bebidas estimulantes não é uma associação criada recentemente.
Declaração direta e aplicação de princípio
Aqui está a distinção fundamental. Não é historicamente correto afirmar que “Ellen G. White disse que erva-mate é pecado”. Até onde as fontes permitem verificar, ela não menciona nominalmente Ilex paraguariensis, chimarrão, tereré ou mate ao fazer essa declaração. Atribuir-lhe essas palavras ultrapassaria a evidência.
Também seria reducionista concluir que sua orientação nada tem a dizer sobre a erva-mate simplesmente porque se trata de outra espécie. Ellen G. White identifica chá e café como bebidas estimulantes e fundamenta sua rejeição também no efeito do estímulo sobre o organismo e sobre o domínio das faculdades. A erva-mate compartilha justamente essa propriedade relevante: contém cafeína e é capaz de produzir efeito estimulante.
Por isso, é útil trabalhar com dois níveis. No nível histórico e textual, a orientação de Ellen G. White se aplica diretamente ao chá verde e ao chá preto derivados de Camellia sinensis e ao café. No nível hermenêutico, há base consistente para aplicar o mesmo princípio ao uso habitual de Ilex paraguariensis como bebida estimulante. Essa aplicação não depende de confundir as duas plantas, mas de identificar a razão que sustenta o conselho.
Isso evita dois extremos. O primeiro é transformar a reforma de saúde em uma lista fechada de produtos do século 19, como se tudo o que não foi mencionado nominalmente estivesse fora de seus princípios. O segundo é ampliar tanto a recomendação que qualquer alimento contendo quantidade mínima de cafeína passe a ser tratado como moralmente equivalente ao chá e ao café. A própria referência de Ellen G. White ao uso ocasional do chá como medicamento mostra que contexto, finalidade e padrão de uso não eram irrelevantes.
Um princípio para o presente
No caso da erva-mate, a formulação mais segura é que Ellen G. White condenou explicitamente o uso do chá e do café como bebidas estimulantes e identificou o chá verde e o preto como parte dessa prática. Ela não deixou, até onde se pode documentar, uma declaração nominal sobre Ilex paraguariensis. Entretanto, a erva-mate contém cafeína, possui efeito estimulante reconhecido e já aparecia em publicações adventistas de sua época dentro dessa discussão. Por isso, aplicar à erva-mate o princípio de abstinência presente em seus conselhos sobre chá e café é uma conclusão historicamente e hermeneuticamente defensável, desde que apresentada como aplicação do princípio, e não como citação direta.
Esse cuidado metodológico é importante para a pregação, o ensino e a orientação pastoral. Fidelidade a Ellen G. White não significa fazê-la dizer mais do que escreveu. Significa estabelecer com clareza o que ela disse, compreender a razão de sua orientação e perguntar como esse princípio alcança práticas equivalentes em outros contextos. Assim, a reforma de saúde permanece um chamado à temperança, ao domínio próprio e ao uso consciente das faculdades físicas e mentais na vida cristã.
Referências
- WHITE, Ellen G. Letter 12, 1888, pars. 2-4. Ellen G. White Estate, EGW Writings.
- Encyclopaedia Britannica. 9. ed. Edinburgh: Adam and Charles Black, v. 23, 1888, p. 97, verbete “Tea”.
- ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. “Camellia sinensis (L.) Kuntze”. Plants of the World Online.
- WHITE, Ellen G. The Ministry of Healing. Mountain View, CA: Pacific Press, 1905, p. 326-327.
- WHITE, Ellen G. Manuscript 44, 1896, par. 10, 4 dez. 1896. Ellen G. White Estate.
- NEHLIG, Astrid; DAVAL, Jean-Luc; DEBRY, Gérard. “Caffeine and the central nervous system: mechanisms of action, biochemical, metabolic and psychostimulant effects”. Brain Research Reviews, v. 17, n. 2, 1992, p. 139-170. DOI: 10.1016/0165-0173(92)90012-B.
- ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. “Ilex paraguariensis A.St.-Hil.” Plants of the World Online.
- HECK, C. I.; DE MEJIA, E. G. “Yerba Mate Tea (Ilex paraguariensis): A Comprehensive Review on Chemistry, Health Implications, and Technological Considerations”. Journal of Food Science, v. 72, n. 9, 2007, p. R138-R151. DOI: 10.1111/j.1750-3841.2007.00535.x.
- REGINATTO, F. H.; ATHAYDE, M. L.; GOSMANN, G.; SCHENKEL, E. P. “Methylxanthines Accumulation in Ilex Species: Caffeine and Theobromine in Erva-Mate (Ilex paraguariensis) and Other Ilex Species”. Journal of the Brazilian Chemical Society, v. 10, n. 6, 1999, p. 443-446. DOI: 10.1590/S0103-50531999000600004; ATHAYDE, M. L.; COELHO, G. C.; SCHENKEL, E. P. “Caffeine and theobromine in epicuticular wax of Ilex paraguariensis A. St.-Hil.” Phytochemistry, v. 55, n. 7, 2000, p. 853-857.
- J. H. K. “Tea and Coffee”. Good Health, v. 15, n. 4, abr. 1880, p. 100-101.
- JONES, Alonzo T. “What Is Not Good Food”. The Home Missionary, v. 6, n. 8, ago. 1894, p. 171-174.
- JONES, Alonzo T. “Evangelistic Temperance: What Is Not Good Food”. The Advent Review and Sabbath Herald, v. 75, n. 22, 7 jun. 1898, p. 363.

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